Para o transporte, nada (Artigo)


O novo coronavírus chegou ao Brasil em corpos de viajantes de avião que faziam turismo noutros continentes, em tese pessoas de classes média e alta. O flagelo comprometeu a atividade turística, e logo o governo federal apressou-se na destinação de bilhões de reais para socorrer o setor da aviação civil – afinal, o sistema transporta 300 mil passageiros/dia.

Nos ambientes urbanos a contaminação ganhou velocidade sobre rodas e em razão da quarentena a retração da economia nacional já é contabilizada. Dentre as atividades afetadas está a indústria automobilística que, sempre ágil, mobilizou-se por subsídios para mitigar os 70% de redução de sua cadeia produtiva. Ganha aporte na Medida Provisória que flexibilizou obrigações trabalhistas e avança na fatia do trilhão de reais liberados para os bancos socorrerem seu capital – afinal, o setor emprega milhares e faz o transporte individual motorizado de 20 milhões de pessoas/dia.

É nesse contexto de perdas que surgem perguntas. O que temos para salvaguardar o setor de transporte público coletivo que gera 1,8 milhão de empregos diretos e indiretos, e transporta 45 milhões de passageiros/dia? Por que os setores aéreo e automobilístico têm suas boias de salvação garantidas e os serviços de transportes públicos naufragam num mar de desprezo político total?

MANAUS, 06/06/14 TERMINAL DA MATRIZ, CENTRO. FOTO: ROBERVALDO ROCHA / CMM

Mera hipocrisia cerca o tema porque há muito os governos conhecem as demandas de quem faz a gestão e quem necessita desses serviços essenciais em suas rotinas. O setor acumula passivos históricos e está em permanente crise, agora agravada pelos efeitos da pandemia. E não por menos, entidades civis acreditadas e insuspeitas já propuseram a criação do Programa Emergencial Transporte Social como emenda aditiva ao mesmo programa federal de socorro emergencial para os demais setores econômicos. Mas nada acontece!

 

Não é razoável, especialmente neste momento, desconsiderar a relevância econômica dos transportes públicos, porque sem ele não há atividade produtiva, menos ainda atendimento à saúde pública e abastecimento da população mais vulnerável, os pobres, em especial – o que pode justificar a diferença no trato, percebe caro leitor?

Na Região Metropolitana de Goiânia, a questão mantém-se enviesada entre propostas governamentais paliativas de pouca eficácia, enquanto os serviços tangem o colapso. O governo estadual acena com auxílio financeiro insuficiente; a Prefeitura de Goiânia institui ingênua política de escalonamento de horários; as demais prefeituras não movem uma palha; e as concessionárias do serviço demonstram no judiciário sua alegada eterna insolvência. Enquanto isso, aglomerações e contaminações dos que não viajam de avião, nem possuem carros!

Nesse contexto de gambiarras, a Câmara Deliberativa de Transporte Coletivo, que é a instância máxima de decisão política do sistema, mantém-se omissa em suas atribuições, sem presidente formalmente constituído, e em plena travessia de uma pandemia cujo principal vetor de contaminação é o transporte público coletivo, para o qual nada, nada se destina.

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